Publicado por: dmonteiro | Dezembro 5, 2008

Review: Guns n’ Roses – Chinese Democracy

Qualquer pessoa com algum interesse em rock n’ roll conhece Guns n’ Roses. Os caras dominaram o cenário musical entre os anos 80 e 90, e venderam milhões de discos. Até aí tudo bem. Quinze anos após o último disco, Spaghetti Incident, composto inteiramente de covers de músicas punk, surge Chinese Democracy.

O disco, da banda que já não conta com a maior parte de sua formação original, alcançou o status de lenda. Desde a saída de Slash e Duff, por volta de 1997, que se espera um disco de inéditas do Guns.

No ano de 2001, Axl Rose e seu Guns n’ Roses ressurgem. O Rock in Rio 3 é o cenário para o pontapé inicial do lançamento do Chinese Democracy. A formação na época contava com Buckethead e Paul Tobias nas guitarras, além de Brian ‘Brain’ Mantia com as baquetas. Durante o show, foram apresentadas algumas músicas novas: Chinese Democracy, Madagascar, The Blues, Silkworms e Oh My God. A última havia sido a primeira música lançada pela nova banda, fazendo parte da trilha do filme Fim dos Dias, em 1999. No final do show, Axl prometeu retornar no próximo verão com as músicas novas.

Durante os próximos anos muito pouca coisa aconteceu (aos olhos dos fãs). Em 2002, houve o cancelamento da turnê americana, além da saída de Paul Tobias. Richard Fortus assumiu a guitarra a partir de então. Em 2004, quando a banda havia confirmado sua presença no Rock In Rio Lisboa, Buckethead tem problemas de saúde e o show é cancelado. Algum tempo depois, o cabeça de balde sai da banda também.

2005 passa praticamente em branco, mas 2006 trouxe novas expectativas para os gunners. Uma sequência de 4 shows nos EUA, em maio, chama a atenção dos fãs, e é marcado pela adição de Ron ‘Bumblefoot’ Thal a banda. Depois disso, Axl e sua turma fazem uma turnê bem sucedida na Europa, continuando com shows pela Asia e EUA até 2007. Mais algumas músicas, que haviam vazado no começo do ano, são tocadas: I.R.S., There Was a Time e Better. Durante esse tempo, houveram vários boatos de que o disco seria lançado, mas todos foram desmentidos logo após.

E chegamos, diretamente do túnel do tempo, ao ano de 2008. No meio do ano, 9 músicas vazaram na internet, ainda que em versões não finalizadas.  Finalmente tivemos lançamento de músicas novas, com Shackler’s Revenge no jogo ‘Rock Band 2′ e If The World nos créditos do filme ‘Body Of Lies’. Em outubro, Chinese Democracy é confirmada como primeiro single do disco, junto com seu lançamento para o dia 23 de novembro.

Após anos e mais anos de trabalho, muitos milhões de dólares e vários integrantes, a lenda chega ao seu final. Chinese Democracy foi lançado e agora eu escrevo meus 2 centavos a respeito do disco.

Para fazer esse review, utilizarei alguns critérios:

Esqueça que a banda não é a clássica e que se passaram mais de 14 anos para que o disco ficasse pronto. Este é um disco como qualquer outro.

Faixa a faixa:

01 – Chinese Democracy (4:42): Além de abrir o disco, a faixa tem a missão de ser o primeiro single e cumpre muito bem seu papel. A introdução, com tambores e várias vozes falando em chinês, cria um clima tenso – logo quebrado pelo grito estridente de Axl. Segue-se um riff pesado, fazendo a estrutura da música. Destaque para a guitarra fretless de Ron e os bons solos de Buckethead. O vocal segue de forma mais grave, em conjunto com um outro Axl mais agudo em alguns trechos. A bateria acompanha muito bem, dando mais peso para a música.

02 – Shackler’s Revenge (3:36): Após uma introdução bem pesada, mas curta, a música segue um embalo pop, com guitarras que lembram um NIN mais elaborado. Axl canta os versos com a voz mais grave, e o refrão com sua voz mais característica. Destaque para o refrão grudento, ponto alto da faixa. O solo de guitarra (trabalho de Ron) é um tanto estranho de primeira, mas é perfeito para um jogo como Rock Band. Ron também faz um bom solo no final da música.

03 – Better (4:57): Esta é a música que mostra o potencial do novo Guns n’ Roses. Ela apresenta uma pegada rock, com um refrão bastante pop, mas não pára por aí. Better apresenta várias quebradas inesperadas, com um primeiro solo de Buckethead seguido de um breve momento metal. Destaque para o segundo solo, de Robin Finck, com muito feeling. Certamente um dos pontos altos do disco. Foi escolhida como segundo single, e talvez terá um videoclipe.

04 – Street of Dreams (4:45): Apresentada em 2001, como The Blues, esta música teve algumas mudanças sutis. Desde a introdução até um segundo solo de guitarra, surpreendemente composto por Buckethead. Essa balada é uma das que mais remete a sonoridade do Guns n’ Roses clássico e deve ser uma das favoritas dos fãs de November Rain e afins. Destaque para os excelentes solos de guitarra e para o belíssimo piano.

05 – If The World (4:53): Aqui começamos a ver o quão amplo é o trabalho de Axl em cima do disco. A faixa apresenta violões de flamenco, uma guitarra funkeada e bateria com ritmo quebrado. Adicione a essa mistura uma guitarra pesada e um bom solo de guitarra. If The World é uma boa idéia, que foi um tanto prejudicada com o excesso de efeitos. Poderia ser mais simples, mas ainda assim tem seu valor. O final da música é genial. Destaque para o violão.

06 – There Was A Time (6:40): Mais um dos pontos altos do disco, esta faixa apresenta uma parede de guitarras, com 3 solos de guitarra. O primeiro solo, de Finck, é bem simples, mas com um feeling imenso. A seguir, a música muda totalmente de embalo, deixando Axl e o resto da banda em segundo plano, enquanto as guitarras travam um duelo. Trabalho nada menos que brilhante, com o excelente solo de Buckethead ao final. Disparado o melhor solo do disco, talvez dos últimos anos!

07 – Catcher In The Rye (5:52): Aqui, o destaque fica para a temática da música. O trabalho de Axl lembra muito um encontro de Queen com os Beatles. O piano dá uma cadencia mais lenta à faixa, enquanto o peso das guitarras faz com que ela se acelere. Solos de muito bom gosto, o primeiro de Robin Finck (que substitui o solo da demo, que era tocado por Brian May) e o segundo de Ron, que acompanha muito bem o vocal até o final.

08 – Scraped (3:29): Após um momento de baladas, esta rocker começa com Axl cantando sozinho. As guitarras não demoram pra pôr tudo a baixo, enquanto Axl canta o hino da nova banda (“Don’t you try to stop us now”). Destaque para o peso das guitarras e para o duelo de vocais entre os dois Axls. O refrão vai crescendo durante a música, o que é bastante interessante. O final soa um pouco embolado, por causa dos dois vocais e da guitarra solo.

09 – Riad N’ The Bedouins (4:09): Outra rocker, com riffs rápidos e conflitantes. Muito bem descrita por um amigo como um ‘murro no cérebro’, esta faixa possui o peso das guitarras e a agressividade do vocal de Axl. Para melhorar, o solo de guitarra poderia ser um pouco menos insano. A música ainda muda mais uma vez, com a entrada de outro solo, mais interessante.

10 – Sorry (6:14): A banda surpreende novamente, com uma música guiada por violões e bastante influenciada pelo trabalho solo de Buckethead. A letra é um desabafo de Axl para Slash. Além disso, ainda há a participação (bastante discreta) de Sebastian Bach, fazendo backing vocals. O refrão é bastante pesado e os solos de guitarra são muito bons, em especial o solo mais lento, de Buckethead – com muito feeling – que lembra bastante Pink Floyd. Uma das melhores faixas, e por coindidência (ou não) resistiu sem vazar até os momentos finais do lançamento do disco.

11 – I.R.S. (4:27): Não se deixe enganar pela introdução calma, pois I.R.S. é uma rocker! Alternando momentos agressivos e momentos mais calmos, Axl Rose se destaca pelo excelente trabalho de vocal. Bom trabalho da cozinha e dois bons solos de guitarra (Robin Finck e Buckethead) dão os toques finais. Outra faixa que deverá agradar bastante os fãs das antigas.

12 – Madagascar (5:37): Esta é a música que talvez represente tudo o que Axl passou durante esses anos. Falando sobre solidão e a vontade de se libertar, a letra ceramente é um dos pontos altos. Destaque para a voz (que expressa sofrimento – praticamente interpretada por Axl) e para o trabalho de Chris Pitman e Dizzy Reed. As colagens – com o discurso de Martin Luther King, I Have a Dream e de Cool Hand Luke (presente também em Civil War) – e o solo de guitarra que acompanha expressam brilhantemente a intenção da música. Épica!

13 – This I Love (5:33): Indo contra a superprodução do disco, esta faixa é surpreendentemente simples. Axl  canta sobre a sua amada e o quanto ela faz falta em sua vida. Belíssima canção, novamente ‘interpretada’ por Axl e muito bem acompanhada por arranjos de muito bom gosto e um solo de guitarra inspiradíssimo de Robin Finck. Diz-se que essa música foi escrita ainda nos tempos da antiga banda.

14 – Prostitute (6:14): Fechando o disco com uma balada não-tão-balada assim. Na letra, Axl diz que não se vende para o sucesso e a fama, mostrando o seu valor pela arte que é este disco. Destaque para o peso das guitarras, que contrastam bastante com as partes calmas. O encerramento, somente com o piano, deixa a vontade de saber o que vem a seguir. Pra onde o Guns n’ Roses segue agora?

Considerações finais:

Chinese Democracy é um trabalho bastante complexo. A cada nova audição pode-se perceber novos detalhes, seja um lick de guitarra, uma linha de baixo ou um efeito. É preciso dar uma boa atenção para esse disco, que com certeza é um dos melhores do ano de 2008.

A expectativa criada em torno do disco pode ser capaz de frustrar muitos curiosos em ouvir este trabalho. Se você procura um novo Appetite For Destruction, ou um Use Your Illusion III, desista. Chinese Democracy representa um passo além.

Para nós, ouvintes (fãs ou não), este é apenas mais um disco. Para Axl e o Guns n’ Roses, esse disco é a conclusão de um projeto, e é possível notar a dedicação e o esforço para que este fosse o mais próximo possível da visão que se tinha de um novo disco da banda. Ninguém mais faz música no mesmo estilo hoje em dia. Devo dizer parabéns pela coragem de Axl de mudar o rumo da banda, indo contra o que se esperava e reinventando o Guns n’ Roses.

O destaque maior de todo o disco, vai para o trabalho vocal de Axl. Melhor do que nunca, Axl canta usando diferentes tons de voz. As letras se sobressaem também, principalmente por relatarem vários momentos pelos quais ele passou e que ficam bastante claros em músicas como Scraped, Sorry, This I Love, Madagascar e Prostitute.

Além disso, Chinese Democracy se destaca pelo brilhante trabalho dos guitarristas, seja com a adição do peso e virtuosismo nas guitarras de Ron, ou da técnica, inovação e feeling de Buckethead ou do estilo e do feeling de Robin Finck.

A diversidade do disco é tão grande, que chega a ser difícil destacar faixas isoladas, mas se você estiver interessado em apenas ter uma idéia do que se encontra em Chinese Democracy, ouça:

Better, Street of Dreams, There Was a Time, Sorry e This I Love.


Respostas

  1. ficou massa o texto…

    eu fui um dos que se frustrou com o lançamento. :P

    faltou nas recomendadas: madagascar, pra mim a melhor do álbum… essa sim uma música que pode marcar época.

  2. Eu acho que um pouco da frustração vem mais pelo som ser bem distante (ainda que lembre em algumas faixas) do que a banda antiga fazia, sendo que essa distância aumenta ainda mais nas rockers…

    Certa vez o Axl disse que haveriam algumas músicas que os fãs das antigas iam gostar e outras que não, então eu já tava meio que esperando por algo diferente.

    E outra…se saísse um outro Appetite os caras iam dizer que era falta de originalidade e blablabla hehehe

  3. If The World e Better são as piores do disco, prostitute nem me lembro por nao ser memorável. Boas mesmo são Chinese Democracy e Madagascar! :D

  4. Chinese Democracy e Madagascar são realmente muito boas, mas aí eu ia acabar colocando quase todo o disco ali :P

    Better eu acho que é implicação tua…só porque é um som mais moderno, mas vai dizer…aquele segundo solo é massa bagario =D

    If The World é bem estranha, mas eu gosto dela…principalmente pelo violão. Acho muito legal essa sonoridade flamenca.


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